Certo dia, quando
cheguei na fazenda, fiquei paralisada.A imagem que eu
tinha de um cavalo que estava encilhado diante de
meus olhos me assustou.
Pensei comigo: "Seria ele o mesmo cavalo que vi
no ano passado no alto da coxilha? o mais brilhante e
magnífico de todos? aquele cavalo altivo e selvagem
que tentava chegar até mim curioso, magro com crinas
cheias de grama e muito sujo? Não, não era ele, eu
só podia estar enganada, eu queria estar
enganada".
Com uma ponta de esperança e coragem perguntei:
- Este cavalo é aquele que estava na coxilha, no ano
passado, e foi domado?
O campeiro orgulhoso de seu cavalo e de seu trabalho
me disse sorridente:
- Sim é ele mesmo, ele esta lindo não é?
- Para mim ele está super feio.
Disse isso sem pensar e, cheia de vergonha, me
arrependi logo, pois a angústia que provoquei no
campeiro e a fúria que ele não soube esconder me
fez aterrizar no mundo real.
Com tristeza, ele pegou o cavalo e retirou de perto
de mim, enquanto eu ainda tentava acariciá-lo. Ele
deve ter pensado: "Se achas feio, por que queres
tocá-lo?".
Aquele pêlo, antes, era tocado apenas em sonhos. Eu
sentia um aperto por dentro, eu poderia até
montá-lo, caso não tivesse ofendido o dono, mas eu
só conseguia ver o olhar triste e apagado. Ele
descansava com seus arreios, o pêlo limpo, as crinas
penteadas e com muita saúde, não era mais o cavalo
que eu havia conhecido, tinha perdido o que eu mais
gostava, seu brilho selvagem, o seu poder. Foi o meu
primeiro choque com a realidade.
Acho que a gente é um pouco assim. A criança brilha
quando é pequena e, como dizia meu marido olhando
para o nosso filho aos dois anos, enquanto eu impedia
o menino de matar um gato a chutes:
- Ninguém me disse que nós seres humanos nascemos
selvagens. Não somos animais domésticos, fui
iludido, temos que domar esta criança antes que seja
tarde.
Tudo é verdade, a criança brilha muito, o
adolescente ainda luta pelo seu brilho, mas só
sobrevivemos domados e, como os cavalos, temos que
aprender a ser felizes assim.