O inverno no Sul brilha pela manhã. A geada
branqueia os campos enquanto o gaúcho reúne a
cavalhada. A manhã é fria , mas ele tem seu pala e se
aquece nas cores do amanhecer. O rosto queimado do frio
reflete a luz do inverno .
oooooJá estava tudo pronto, cavalos
encilhados, laço nos tentos e muito chão para
percorrer. O trote suave do crioulo levava o gaúcho a
percorrer os seus campos. Ninguém conhecia mais aquele
pedaço de terra, ninguém fora o seu pingo gateado, que
o acompanhava a mais de 15 anos. Eles formavam uma imagem
nobre que já fazia parte do cenário daquele lugar.
oooooEste era meu vô , viveu 90 anos
no campo e hoje tenho o prazer de recordá-lo. Eu era uma
criança encantada com tudo que vinha da terra e ele me
levava para longas cavalgadas onde me ensinava muitas
coisas do campo. O que eu mais gostava era como
identificar, entre a sua criação de cavalos crioulos,
os pêlos destes animais. Palavras como Zaino, Tubiano,
Lobuno e outras eram para mim nomes totalmente
desconhecidos que ele passo a passo tornava-as super
familiares.
00000A volta era uma delícia. Os
cavalos estavam mais ligeiros, porque sabiam que faltava
pouco para o seu descanso e o vô ia sempre me dizendo
por onde conduzi-los para melhor poupar os cascos dos
animais. Passávamos por pedras, pastos, aguadas e areia
e a cada passagem vinha uma orientação diferente.
0000A chegada era cheia de surpresas
. Desencilhar o cavalo era tarefa difícil que só depois
de muito tempo fui capaz de realizar. Cada corda tinha
uma história e um lugar especial. Curiosa, eu observava
que o cavalo, sempre atento, sabia tudo que ia ser feito
até que ele pudesse deitar no campo e rolar suas costas
no chão. A parte que eu mais gostava era ver derramar
uma água no lombo do cavalo e dar uma penteada no pelo
suado, depois de tirar o último enxergão. Depois vinha
a alegria do crioulo sacudindo suas crinas ao encontro da
liberdade. As lições encerravam com um mate gostoso ao
redor da lareira.
0000Pintando me aproximo destas
doces recordações. Expondo o meu trabalho mostro o
carinho que tenho pela minha terra, o respeito que tenho
pelos homens do campo e o meu orgulho de ser gaúcha.
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